Reportagem
Revista Veja - Edição 2091 - 17 de dezembro
de 2008
Planeta em duas rodas
O
sucesso das e-bikes, dotadas de motor elétrico, mostra que
o mundo redescobriu a bicicleta como meio de transporte
Carolina Romanini e Roberta de Abreu Lima
A
indústria automobilística não se cansa de repetir
que os carros elétricos têm um lugar garantido no futuro
da frota mundial de veículos. Até hoje, porém, a
maioria dos carros movidos a bateria são apenas protótipos.
Já as bicicletas elétricas, que começaram a ser produzidas
em série há uma década, se transformaram em uma alternativa
realista de transporte de massa. Elas são dotadas de um pequeno
motor movido a bateria de íons de lítio, semelhante às
dos celulares, ou de chumbo, aparentada com as dos automóveis.
Ambas as baterias podem ser carregadas em tomadas domésticas, por
períodos que vão de duas a seis horas. As e-bikes, como
são chamadas nos Estados Unidos, destinam-se a reduzir o esforço
físico do ciclista nas ladeiras. Evidentemente, têm também
a vantagem de não poluir o ar como as motocicletas e as antigas
motonetas. Nos Estados Unidos, em 2007, foram vendidas 120.000 bicicletas
elétricas. Neste ano, calcula-se que as vendas cheguem a 170 000
unidades. Na Europa, o crescimento na venda de e-bikes entre 2006 e 2007
foi de 20%. Nada que se compare à China, onde 16 milhões
de bicicletas elétricas foram vendidas neste ano. Mas os chineses,
como se sabe, são tradicionalmente movidos a duas rodas.
O aumento na venda de e-bikes
reflete não apenas o êxito
de uma tecnologia, mas uma tendência mundial de retomar a bicicleta
como meio de transporte. O aumento contínuo no preço do
petróleo nos últimos anos, a preocupação com
a mudança climática e a necessidade de evitar o trânsito
caótico das grandes cidades fazem da bicicleta uma opção
freqüente para quem precisa ir de casa para o trabalho ou quer passear
nos fins de semana. De quebra, pedalar faz bem à saúde. "A
bicicleta deixou de ser usada apenas para o lazer e se transformou num
meio de transporte eficiente e ambientalmente responsável",
disse a VEJA o americano Bill Fields, consultor especializado na indústria
de bicicletas.
Nos últimos oito anos, a produção mundial de bicicletas
cresceu 50% – passou de 90 milhões para 135 milhões
de unidades. No ano passado, foram produzidos 45 milhões de automóveis.
O melhor exemplo do prestígio em alta da bicicleta é que,
no mundo todo, grandes cidades estão sendo adaptadas para oferecer
infra-estrutura adequada a esse meio de transporte. Isso inclui a construção
de ciclovias, a reformulação de sinalizações
e a criação de sistemas de aluguel de bicicletas a baixo
custo. Um dos mais famosos é o Vélib, criado pela prefeitura
de Paris no ano passado. As bicicletas são oferecidas em 1 450
pontos da capital francesa. O ciclista paga 1 euro pela primeira meia
hora e depois o valor aumenta. Estima-se que 20.600 bicicletas circulem
diariamente por quase 400 quilômetros de ciclovias disponíveis
em Paris.
A prefeitura de Barcelona,
na Espanha, inaugurou no ano passado um serviço
de aluguel de bicicletas que ocupa 400 pontos distribuídos pela
cidade. O sistema permite que o ciclista cheque pela internet, em tempo
real, se há bicicletas disponíveis no ponto mais próximo.
O mais moderno sistema de aluguel de bicicletas será inaugurado
em 2009 em Montreal, no Canadá. As máquinas usadas para
comprar os bilhetes para o aluguel são abastecidas com energia
solar. As bicicletas, feitas com estrutura de alumínio resistente,
são dotadas de freios internos dianteiros e traseiros, protetores
no guidão e na correia e um mecanismo que propicia maior estabilidade
ao ciclista. A revista Time acaba de escolher o sistema de aluguel de
bicicletas de Montreal como uma das cinqüenta melhores inovações
de 2008.
São Paulo acaba de inaugurar seu sistema de aluguel de bicicletas.
São oitenta delas, distribuídas em oito estações
do metrô. O ciclista não paga pela primeira hora de uso e
cada hora adicional custa 2 reais. A iniciativa é tímida,
mas já é um começo. "Há uma demanda crescente
de infra-estrutura para a circulação de bicicletas na cidade.
Conforme o suporte para os ciclistas melhorar, a procura pelo aluguel
deverá aumentar", prevê Ismael Caetano, um dos fundadores
da ONG Instituto Parada Vital, que implementou e coordena o projeto. Para
que os paulistas adotem a bicicleta para valer, será preciso investir
fortemente em ciclovias. A cidade tem ínfimos 30 quilômetros
de pistas dedicados a bicicletas, incluindo as localizadas dentro de parques.
Por enquanto, pedalar pelas grandes avenidas de São Paulo é programa
para aventureiros.
A venda de bicicletas no Brasil
cresceu 20% nos últimos dois anos.
Em 2007, foram comercializados 5,5 milhões de unidades. A maioria
dos ciclistas brasileiros, porém, ainda não utiliza o veículo
como meio de transporte. O ortopedista paulista Antônio Augusto
Nunes de Abreu, de 40 anos, é uma exceção. Há quase
uma década, Abreu pedala mais de 40 quilômetros por dia para
ir e voltar de sua casa, na Zona Norte, até o hospital Albert Einstein,
na Zona Sul, onde trabalha. "De bicicleta levo o mesmo tempo que
levava de carro para percorrer o trajeto, mas evito o stress de que era
vítima por ficar parado no trânsito", ele relata. Especialistas
em transporte acreditam que a popularização das bicicletas é irreversível
em todo o mundo. "Tenho acompanhado os melhoramentos realizados em
inúmeras cidades em prol dos ciclistas e fica claro que essa transformação é definitiva",
disse a VEJA o consultor americano Peter Berra, do grupo Bike Friday.
As e-bikes, mais confortáveis e eficientes, podem acelerar esse
processo.
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